Sexta-feira, 6 de Julho de 2007

Vaidade

Vaidade

Sonho que sou a poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo!  E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho... E não sou nada!...
Florbela Espanca
Há já um tempo que não colocava aqui um poema da poetisa do meu Alentejo e ao cruzar-me hoje na rua com uma série de pessoas muito emproadas e senhoras do seu nariz, daquelas que até têm medo de mexer a cabeça não vá algum fio de cabelo sair do lugar, lembrei-me deste poema sobre a vaidade que é uma característica (para ser educada e não lhe chamar defeito) que ultimamente muito grassa por aí.
A vaidade, sorrateiramente, está quase sempre presente dentro de nós e, quando não exagerada, creio não vir daí mal ao mundo. De alguma forma e de variada intensidade, contamos todos com a nossa parcela de vaidade, que se pode manifestar nas nossas motivações e desejo de realizar algo, o que é certamente válido até certo ponto.
O perigo, quanto a mim, reside nos excessos e no desconhecimento das fronteiras entre os impulsos de idealismo , por amor a uma causa nobre, e os ímpetos de destaque pessoal, característicos da vaidade.
Esta, nas suas diferentes formas de apresentação, quer seja a postura física, a retórica ao falar, os gestos exagerados e teatrais, as reacções arrogantes, são quase sempre um sintoma de deformação da forma como o indivíduo encara os outros, face aos valores pessoais que a sociedade estabeleceu. Todas as características que referi destinam-se a chamar a atenção e isso agrada sobremaneira ao chamado "vaidoso" que por vezes nem se apercebe que o é. Vive desempenhando uma personagem que escolheu e, no seu íntimo, é sempre diferente do que aparenta e, de alguma forma, essa dualidade de personalidade causa-lhe conflitos, acabando por sofrer com tudo isso e sentindo necessidade de encontrar-se a si mesmo, embora às vezes sem saber bem como.


publicado por daplanicie às 15:22

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12 comentários:
De guiga a 6 de Julho de 2007 às 15:29
Partilhamos o gosto pelos poemas de Florbela. Aliás, ela é mesmo a minha poetisa de eleição!

Tens razão, há pessoas emproadas! Parece que lhes custa até sorrir para cumprimentar.

São pessoas que não se sentem bem consigo mesmas e, como tal, não se sentem bem com as outras pessoas.

Bom fim-de-semana!
*.*
De daplanicie a 6 de Julho de 2007 às 15:43
Também é a minha poetisa preferida, sem dúvida!
Um beijinho e bom fim de semana também para ti
De Flá a 6 de Julho de 2007 às 15:51
Sem dúvida uma grande senhora, pelo mérito e não pela mania que em muitos casos é vista como sendo vaidade...foi Florbela que despertou em mim o gosto pela poesia e consequentemente pela escrita, porque comecei pela poesia mas vi que aquele não era o meu caminho.
deixei-lhe um comentário no post anterior que não sei se viu
beijo e bom fim de semana
De daplanicie a 6 de Julho de 2007 às 17:21
Já vi e já respondi. :-) Partilhamos então o gosto pela Florbela. Não sei se sabes mas é uma poetisa alentejana, de Vila Viçosa, e tem lindos poemas sobre o alentejo.
Beijocas
De nofimdoarcoiris a 6 de Julho de 2007 às 16:05
Há vaidades e vaidades! A vaidade pode ser saudável quando é sinónimo de orgulho pelo que somos ou por algo de bom que fizemos. É nociva quando serve apenas para alguém se valorizar sem olhar aos outros, com arrogância. Infelizmente, há tantos vaidosos por aí! E a maior parte deles nem sequer tem algo de que se orgulhar.
Ser vaidoso para quê?
Como diria o nosso poeta António Aleixo:
"Uma mosca sem valor
Pousa com a mesma alegria
Na careca de um doutor
Como em qualquer porcaria"
Bjs e até ao meu regresso
De daplanicie a 6 de Julho de 2007 às 17:22
Esse é outro poeta que eu adoro, embora em estilo mais popular nunca deixou de dizer grandes verdades em palavras bem simples. Esta quadra está fantástica! LOL
Beijinhos e bom fim de semana
De carlos a 6 de Julho de 2007 às 16:22
Florbela,grande Florbela, este gosto é comun.
Vaidade acho que todos a temos que ter,faz-nos falta e sabe bem.Mas sem exageros, aí não é vaidade,é, prepotencia, arrogancia,má educação.
Beijinhos
De daplanicie a 6 de Julho de 2007 às 17:24
Concordo plenamente contigo, e há disso por aí em abundância. Bom fim de semana para ti. Bj
De Marta Santos a 6 de Julho de 2007 às 17:28
O poema que escolheste é lindo. Florbela Espanca tem uma obra que não conheço bem, sinceramente nunca fui muito dada a ler poesia. Mas cada vez que ouço um texto dela fico completamente deleitada.

Tal como Florbela Espanca talvez também essas ditas senhoras que encontraste acordem do sonho e percebam que não são nada.

**
De daplanicie a 6 de Julho de 2007 às 21:33
Eu acho que com o nariz tão empinado o bom mesmo era tropeçarem e ficarem descompostas...talvez lhes caisse a máscara de importantonas. :-)
***
De Raquel Alves a 6 de Julho de 2007 às 18:06
Vou repetir comentadores anteriores...aprecio Florbela Espanca. Sendo do sul viveu aqui no Norte, em Matosinhos, onde há uma Biblioteca com o seu nome. Penso que aqui não foi muito feliz e...decidiu morrer.
Quanto á vaidade, sempre a olhei como defeito. Ser-se uma pessoa em busca da perfeição a todos os níveis não julgo ser bem vaidade. Mas, não sei!...Um abraço a todos os "fâs" da Florbela.
De daplanicie a 6 de Julho de 2007 às 21:48
É o mal dos alentejanos...quando deixam de ver as suas planícies fenecem e alguns acabam mesmo por morrer. Também penso que a busca da perfeição não seja vaidade. O que pode ser vaidade é exibir exageradamente os esforços que se fazem para lá chegar. Um abraço e um muito obrigada pela visita e pelo comentário.

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