Quarta-feira, 2 de Janeiro de 2008

Está tudo doido

Por António Barreto
A MEIA DÚZIA DE LAVRADORES que comercializam directamente os seus produtos e que sobreviveram aos centros comerciais ou às grandes superfícies vai agora ser eliminada sumariamente. Os proprietários de restaurantes caseiros que sobram, e vivem no mesmo prédio em que trabalham, preparam-se, depois da chegada da "fast food", para fechar portas e mudar de vida. Os cozinheiros que faziam a domicílio pratos e "petiscos", a fim de os vender no café ao lado e que resistiram a toneladas de batatas fritas e de gordura reciclada, podem rezar as últimas orações. Todos os que cozinhavam em casa e forneciam diariamente, aos cafés e restaurantes do bairro, sopas, doces, compotas, rissóis e croquetes, podem sonhar com outros negócios. Os artesãos que comercializam produtos confeccionados à sua maneira vão ser liquidados.
A SOLUÇÃO FINAL vem aí. Com a lei, as políticas, as polícias, os inspectores, os fiscais, a imprensa e a televisão. Ninguém, deste velho mundo, sobrará. Quem não quer funcionar como uma empresa, quem não usa os computadores tão generosamente distribuídos pelo país, quem não aceita as receitas harmonizadas, quem recusa fornecer-se de produtos e matérias-primas industriais e quem não quer ser igual a toda a gente está condenado. Estes exércitos de liquidação são poderosíssimos: têm Estado-maior em Bruxelas e regulam-se pelas directivas europeias elaboradas pelos mais qualificados cientistas do mundo; organizam-se no governo nacional, sob tutela carismática do Ministro da Economia e da Inovação, Manuel Pinho; e agem através do pessoal da ASAE, a organização mais falada e odiada do país, mas certamente a mais amada pelas multinacionais da gordura, pelo cartel da ração e pelos impérios do açúcar.
EM FRENTE À FACULDADE onde dou aulas, há dois ou três cafés onde os estudantes, nos intervalos, bebem uns copos, conversam, namoram e jogam às cartas ou ao dominó. Acabou! É proibido jogar!
Nas esplanadas, a partir de Janeiro, é proibido beber café em chávenas de louça, ou vinho, águas, refrigerantes e cerveja em copos de vidro. Tem de ser em copos de plástico.
Vender, nas praias ou nas romarias, bolas de Berlim ou pastéis de nata que não sejam industriais e embalados? Proibido.
Nas feiras e nos mercados, tanto em Lisboa e Porto, como em Vinhais ou Estremoz, os exércitos dos zeladores da nossa saúde e da nossa virtude fazem razias semanais e levam tudo quanto é artesanal: azeitonas, queijos, compotas, pão e enchidos.
Na província, um restaurante artesanal é gerido por uma família que tem, ao lado, a sua horta, donde retira produtos como alfaces, feijão verde, coentros, galinhas e ovos? Acabou. É proibido.
Embrulhar castanhas assadas em papel de jornal? Proibido.
Trazer da terra, na estação, cerejas e morangos? Proibido.
Usar, na mesa do restaurante, um galheteiro para o azeite e o vinagre é proibido. Tem de ser garrafas especialmente preparadas.
Vender, no seu restaurante, produtos da sua quinta, azeite e azeitonas, alfaces e tomate, ovos e queijos, acabou. Está proibido.
Comprar um bolo-rei com fava e brinde porque os miúdos acham graça? Acabou. É proibido.
Ir a casa buscar duas folhas de alface, um prato de sopa e umas fatias de fiambre para servir uma refeição ligeira a um cliente apressado? Proibido.
Vender bolos, empadas, rissóis, merendas e croquetes caseiros é proibido. Só industriais.
É proibido ter pão congelado para uma emergência: só em arcas especiais e com fornos de descongelação especiais, aliás caríssimos.
Servir areias, biscoitos, queijinhos de amêndoa e brigadeiros feitos pela vizinha, uma excelente cozinheira que faz isto há trinta anos? Proibido.
AS REGRAS, cujo não cumprimento leva a multas pesadas e ao encerramento do estabelecimento, são tantas que centenas de páginas não chegam para as descrever.
Nas prateleiras, diante das garrafas de Coca-Cola e de vinho tinto tem de haver etiquetas a dizer Coca-Cola e vinho tinto.
Na cozinha, tem de haver uma faca de cor diferente para cada género.
Não pode haver cruzamento de circuitos e de géneros: não se pode cortar cebola na mesma mesa em que se fazem tostas mistas.
No frigorífico, tem de haver sempre uma caixa com uma etiqueta "produto não válido", mesmo que esteja vazia.
Cada vez que se corta uma fatia de fiambre ou de queijo para uma sanduíche, tem de se colar uma etiqueta e inscrever a data e a hora dessa operação.
Não se pode guardar pão para, ao fim de vários dias, fazer torradas ou açorda.
Aproveitar outras sobras para confeccionar rissóis ou croquetes? Proibido.
Flores naturais nas mesas ou no balcão? Proibido. Têm de ser de plástico, papel ou tecido.
Torneiras de abrir e fechar à mão, como sempre se fizeram? Proibido. As torneiras nas cozinhas devem ser de abrir ao pé, ao cotovelo ou com célula fotoeléctrica.
As temperaturas do ambiente, no café, têm de ser medidas duas vezes por dia e devidamente registadas.
As temperaturas dos frigoríficos e das arcas têm de ser medidas três vezes por dia, registadas em folhas especiais e assinadas pelo funcionário certificado.
Usar colheres de pau para cozinhar, tratar da sopa ou dos fritos? Proibido. Tem de ser de plástico ou de aço.
Cortar tomate, couve, batata e outros legumes? Sim, pode ser. Desde que seja com facas de cores diferentes, em locais apropriados das mesas e das bancas, tendo o cuidado de fazer sempre uma etiqueta com a data e a hora do corte.
O dono do restaurante vai de vez em quando abastecer-se aos mercados e leva o seu próprio carro para transportar uns queijos, uns pacotes de leite e uns ovos? Proibido. Tem de ser em carros refrigerados.
TUDO ISTO, como é evidente, para nosso bem. Para proteger a nossa saúde. Para modernizar a economia. Para apostar no futuro. Para estarmos na linha da frente. E não tenhamos dúvidas: um dia destes, as brigadas vêm, com estas regras, fiscalizar e ordenar as nossas casas. Para nosso bem, pois claro.
«Retrato da Semana» - «Público» de 25 de Novembro de 2007


 

publicado por daplanicie às 10:58

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12 comentários:
De TiBéu ( Isa) a 2 de Janeiro de 2008 às 14:11
Belo texto, belo começo de ano, pena que seja desta forma e não com novidades melhores, mas acho bem dar a conhecer o mundo em que vivemos. BOM ANO e votos que seja com muita saúde e PAZ. tudo de bom. bj da amiga virtual, mas amiga
De daplanicie a 5 de Janeiro de 2008 às 13:55
Muito obrigada por continuares a fazer-me "companhia" neste novo ano! :-)
Beijinhos com amizade
De guiga a 2 de Janeiro de 2008 às 14:40
Sim, há certos extremismos. Mas, por exemplo, sou completamente a favor de ser proibido fumar nos cafés. Muitas vezes fico com falta de ar devido ao fumo. Querem fumar, desgraçar a saúde, que se desgracem sozinhos. Querem que respeitemos a liberdade, respeitam a nossa de não querer levar com o vosso fumo!

FELIZ 2008!!! Tudo de bom para ti!!!
Sorrisos, muitos sorrisos!
Beijos *.*
De daplanicie a 5 de Janeiro de 2008 às 13:57
Sim, no que se refere à nova lei do tabaco não poderia estar mais de acordo ainda para mais sendo asmática. Muitas vezes deixei de frequentar certos sítios por me fazerem sentir mal devido ao excesso de fumo de tabaco!
Beijinhos e obrigada pelas visitas e comentários, amiga
De RCataluna a 2 de Janeiro de 2008 às 16:36
Grande texto: arrasador e certeiro!!

Votos de bom ano!!!
De daplanicie a 5 de Janeiro de 2008 às 13:58
Muito obrigada por continuares a visitar-me e a deixar as tuas palavras de apoio.
Um beijinho
De dolce_vita a 2 de Janeiro de 2008 às 17:29
Olá,como vamos sobreviver a tanto zelo?
Andamos,preocupados com o encerramento de unidades de saúde,não vamos precisar ,vai ser irradicada toda equalquer doença...valha-me Deus!
Até quando aguentamos tanto fundamentalismo??
Um abraço,antes que os proíbam também.
De daplanicie a 5 de Janeiro de 2008 às 13:59
É verdade, não há fome que não dê em fartura. Passámos do "reino da porcalhota" para o "paraíso da esterilização". Será que nunca ouviram dizer que no meio é que está a virtude??!!
Beijinho
De nofimdoarcoiris a 4 de Janeiro de 2008 às 12:12
Acho bem que existam algumas regras, nomeadamente no que se refere à conservação dos produtos, mas está a ser demais!
Já uma vez, em conversa, referi exactamente o que vem no último paragrafo: estou à espera do dia em que a ASAE me bate à porta para inspeccionar a minha cozinha...
Bjs
De daplanicie a 5 de Janeiro de 2008 às 14:01
Sim, também concordo que as oisas sejam fiscalizadas proque com a saúde não se brinca mas o exagero está a ser a nota dominante nas actuações da dita polícia.
Beijinho
De Nettwerk van Helsing a 5 de Janeiro de 2008 às 12:13
E não se vê jeitos das coisas mudarem... pessoalmente, não sou contra algumas das coisas que a malta da ASAE faz, mas há limites para tudo... é que sou fã dos produtos produzidos na terrinha, e não os trocava pelos das grandes superfícies. E, pelos jeitos que se está a ver, daqui a alguns tempos, só vamos ter mesmo esses últimos. E é se tivermos sorte.

Cumprimentos.
De daplanicie a 5 de Janeiro de 2008 às 14:02
Também sou a favor da fiscalização mas com conta, peso e medida. Parece-me mas é que a dita polícia está a ficar um bocado paranóica...
Cumprimentos

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