Domingo, 22 de Junho de 2008

Violência nas escolas

Este post surge no seguimento dos comentários que as minhas amigas Princesa e realidade de um sonho me deixaram a propósito do meu post anterior, onde referiam as suas más memórias relativamente às suas professoras do ensino primário e do que sofreram durante esses anos.

Depois de ler as suas palavras, fiquei a pensar como fui realmente privilegiada durante os meus anos de escola. A minha professora dos 4 anos da primária era uma querida e, embora também desse as suas reguadas quando se irritava, não era nada do outro mundo.

Eu tive a sorte de apenas ter levado uma durante os 4 anos e, no final, ela ainda me pediu desculpa pois viu que tinha sido injusta comigo. É verdade que eu sempre fui uma criança sossegada e uma óptima aluna e talvez também por isso as minhas recordações sejam melhores. Mas, no geral, não era uma pessoa agressiva ou distante e todos gostávamos dela. Ainda hoje me emociono quando a vejo e ela, apesar dos anos que passaram (e não foram poucos...), ainda se lembra do meu nome e de pormenores da nossa vida escolar em conjunto que me deixam boquiaberta.

Mas sei perfeitamente que nem todas as pessoas tiveram a mesma sorte que eu e isso deixa-me profundamente triste. A propósito disto lembrei-me de uma coisa que aconteceu há já 13 anos. Estava, nesse ano, a leccionar numa localidade aqui perto e um aluno partiu o vidro da janela com uma bola. Mandámos chamar um vidraceiro para reparar os danos e, quando o senhor chegou, mandei-o entrar na sala e ele ficou parado à porta sem se resolver a entrar.

Fui até ao pé dele, pensando que ele talvez não tivesse visto o meu gesto a pedir-lhe para entrar e vi que ele estava branco e até parecia não estar a sentir-se bem. Como era uma pessoa já de certa idade, fiquei preocupada e perguntei-lhe se havia algum problema. Fiquei chocada quando ele me responde "Professora, a senhora não sabe o sacrifício que eu vou fazer para entrar na sua sala". Devo ter ficado com cara de tola a olhar para ele porque se apressou logo a explicar que não tinha nada a ver comigo. Contou-me então que aquela tinha sido a sua sala da primária e tinha lá sofrido horrores. A história que me contou parecia um filme de terror. O seu professor chegou ao ponto de espalhar pedras ou bagos de milho nos cantos da sala e, se algum abrisse a boca durante o dia, obrigava-os a ajoelhar nas pedras e só se podiam levantar quando os joelhos sangrassem. Esta foi apenas uma das atrocidades que aquele senhor me contou, com uma cara de sofrimento que me deixou com um enorme aperto no peito. Foi de tal maneira que até um braço aquele professor partiu a outro aluno da sala, com uma paulada que lhe deu.

E ninguém se queixava porque tinha medo de maiores represálias. Era o tempo em que os alunos eram "tomados de ponta" e isto era sinónimo de que os professores não lhes ligavam nada até ao fim do ano, coisa que apavorava qualquer pai. Era também o tempo em que se julgava que as crianças aprendiam melhor se estivessem aterrorizadas e com pavor do que aconteceria se não soubessem a lição. E ainda o tempo em que se acreditava que não havia alunos com dificuldades e sim "madraços" que não ligavam à escola e, por isso, dignos de desprezo.

Quando comecei a trabalhar, há 22 anos, ainda havia desses professores do tempo antigo. Dos que acreditavam que o respeito se conquistava à reguada e ao estalo na cara e isso, francamente, nunca consegui entender. Sempre achei que com amor se educa melhor do que com ódio e nunca fui adepta da "pancadaria".

Mas também acho que uma palmada no rabiosque, no momento oportuno, não mata ninguém e faz milagres. No entanto, actualmente, caiu-se no extremo oposto e não se pode tocar nos meninos nem com uma flor, sob pena de sermos acusados de violência. É agora o tempo em que temos que aguentar tudo e mais alguma coisa, em que apanhamos alunos que nos mandam para sítios que nunca imaginámos e que levam facas para a escola. É o tempo em que os alunos se sentem no direito de dizer a um adulto "Tu não mandas em mim porque não és minha mãe/pai" quando na verdade somos mães, pais, enfermeiras, psicólogas, amigas...tudo e mais alguma coisa.

Minhas amigas, lamento muito que as vossas recordações do vosso tempo de escola sejam tão más e lamento não poder fazer nada para remediar esse facto. A única coisa que posso fazer é continuar a tentar que os meus alunos recordem sempre a sua infância como uma das melhores épocas da sua vida.

 

 

publicado por daplanicie às 12:16

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16 comentários:
De Flá a 22 de Junho de 2008 às 18:00
Fico honrada por de certa forma a ter levado a escrever isto.
E fico feliz por saber que existem bons professores primários...e espero que existam realmente muitos.

obrigada pela dicazinha

De daplanicie a 25 de Junho de 2008 às 08:24
Finalmente tive uns minutinhos para responder aos comentários! Amiga, os professores são como todos os outros: há bons e maus, como em todas as profissões. Mas quero acreditar que os maus são uma minoria :-)
beijinho
De Júlia a 22 de Junho de 2008 às 19:16
A minha professora era uma peste. Não que eu tenha razão de queixa dela, mas fazia coisas horríveis às minhas colegas com mais dificuldades. Ainda me lembro de uma que ficou sem bocados de pele nas orelhas tal o estrago que as unhas da criatura lhe fez.
Escrevi, noutro blogue algumas lembranças que tenho desse tempo. Se te apetecer, vai lá dar uma vista de olhos.
http://gambozino-alentejano.blogspot.com/2008/05/amor-platnico.html
http://gambozino-alentejano.blogspot.com/2008/05/instruo-primria.html
Beijinhos e boa semana
De daplanicie a 25 de Junho de 2008 às 08:39
Esse era realmente um dos problemas do antigamente, o tratamento diferenciado dado às crianças consoante a sua origem. Revoltante!
Beijinho
De Nettwerk van Helsing a 23 de Junho de 2008 às 00:42
Bom, da minha professora da primária não tenho grandes queixas, deu-me a educação que eu precisei e umas chapadas quando esta abécula se lembrava de fazer uma parvoíce qualquer (como andar em cima das mesas... vá-se lá saber porquê).
Em conversa com a malta que me atura diariamente (ou seja, os meus amigos), dou comigo a pensar que fui algo privilegiado por me ter calhado a shôdona Ester Caramelo... pois já ouvi contos deles de réguas a partirem-se nas mãos, e coisas parecidas (malta da minha idade, atenção... se bem que numa escola diferente da minha).
No entanto, a história do vidraceiro fez-me lembrar um dos dramas que o meu pai passou na saudosa Escola Primária da Corte Malhão (um dos edifícios escolares mais bonitos que já vi, que hoje em dia está a cair de podre): ele sempre teve uma bonita caligrafia, mas dava muitos erros (e ainda hoje dá, apesar de tudo... acho que é mesmo das pessoas - eu escrevo sem erros, mas tive de começar a rescrever em letra de máquina, e mesmo assim, às vezes... ui ). Não eram raras as vezes que ele levava tareia por causa dos erros de escrita que cometia. E, tantas vezes que ele se esmerava para escrever as coisas bem; só que, naquela altura, o raio do papel era de ruim qualidade, e escrevendo as coisas com aquelas canetas de tinta permanente, não demorava muito para as letras começarem a formar umas perninhas onde não deviam, a tinta a espalhar-se... e o meu pai a levar, consequentemente. Mesmo explicando que a culpa era do papel...
Realmente, é um facto: passou-se do 80 para o 8. Bem que dava jeito darem umas cartinhas brancas aos professores, para ver se tanta coisa mudava...

Cumprimentos (e muita paciência, para ler isto tudo).
De daplanicie a 25 de Junho de 2008 às 08:43
Muito obrigada pelo teu comentário! Ainda bem que tiveste sorte com a tua professora porque é uma fase que nos marca para toda a vida, acho eu. E quanto ao teu pai (a escola de Corte Malhão, que julgo ser no concelho de Odemira, está como muitas outras por esse país fora!) era mesmo típico da época. Também eu tinha que usar as famigeradas canetas de aparo, que ram um tormento. Abençoado o inventor das esferográficas :-)
Cumprimentos
De A VER NAVIOS a 23 de Junho de 2008 às 11:33
Gostei do seu post.
Creio que os casos de horrores que comenta, foram excepções à regra.
No meu tempo, também tive a sorte de ter um professor espectacular. Também dava as suas reguadas, também punha o pessal de castigo, mas nada das atrucidades que contavam relativamente a outros professores.
Agora que se está no extremo oposto, creio que, mais uma vez, compete aos nossos professores, imporem um ponto de equilíbrio, que proporcione uma vida feliz a eles próprios, aos alunos e aos seus pais.
Isto, se calhar, é lirismo a mais. Oxalá que não.
Boa semana,
J. Lopes
De daplanicie a 25 de Junho de 2008 às 08:44
Eu também gostaria que não fosse lirismo mas infelizmente não estou muito confiante em relação a uma evolução positiva.
Obrigada e cumprimentos
De Mamã Gansa a 23 de Junho de 2008 às 12:33
Vim aqui dizer que está um mimo a aguardar no meu blog e deparo-me com este post magnífico.De facto assim é devido aos exageros brutais de alguns antigos professores, hoje temos que aturar tudo.

beijinhos
De daplanicie a 25 de Junho de 2008 às 08:45
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades...mas nem sempre para melhor. Passou-se de um extremo ao outro, infelizmente.
Beijinho
De guiga a 23 de Junho de 2008 às 15:37
Eu também tenho um trauma da minha professora da 4.ª classe! Era horrível vê-la gritar, puxar orelhas... E ver a distinção que ela fazia entre os filhinhos de papá e os mais pobres. Marcou-me!
Mas, da 1ª à 3ª classe tive uma professora espectacular, que adoro ver! :)
Há de tudo!Tu pareces ser uma professora espectacular!
Beijinhos e boa semana!*.*
De daplanicie a 25 de Junho de 2008 às 08:47
E pronto, lá escorreu um rio de baba que já ensopou o teclado!
És uma querida! Beijinhos e boa semana para ti
De letras a 24 de Junho de 2008 às 15:49
A minha prof da primária foi muito boa!e eu nao era propriamente uma santinha. Estava sempre na conversa, por mais que ela tentasse arranjava sp estratagemas para conversar com os colegas do lado..ehehe!
Mas tb sempre fui boa aluna!Mas as reguadas aplicavam-se e nao traumatizaram ninguem!Na verdade, da turma dela é muito grande a perceentagem que pelo menos tirou um curso superior...isso já é um bom sinal ;)

*
De daplanicie a 25 de Junho de 2008 às 08:49
Quando as coisas são com conta, peso e medida não há mal nenhum num castigo ou numa palmada. Mas, com a evolução dos tempos, passou-se a um "laissez-faire" que mete dó e não beneficia ninguém.
Beijinhos :-)
De Pérola a 25 de Junho de 2008 às 11:06
Eu tenho a certeza que há execelentes professores primários... Eu tive uma assim.
No 1º e 2º ano tive uma professora que.. bem, de boa não tinha nada. Eu tinha as minhas dificuldades, principalmente a matemática, mas era bem comportada e sossegada. Mas se um exercicio estivesse mal, era bofetada na certa! Eu cheguei a levar muitas desta professora no que toca aos exercicios da tão malfadada disciplina... e até hoje não posso ver números á minha frente por causa disso... lol.
Já no 3º e 4º anos tive a filha da anterior professora e as diferenças eram como da água para o vinho. Esta era boa pessoa, e só deu, em dois anos, uma reguada num aluno que se portou mesmo mal. Mas a ensinar era excelente e desta, sim, tenho boas recordações! :-)
Beijinhos
De daplanicie a 25 de Junho de 2008 às 11:18
Vá lá que não tiveste a infelicidade de ela continuar a dar-te aulas até ao 4º ano senão não tinhas nenhumas boas recordações para contar. :-)

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