Segunda-feira, 23 de Abril de 2007

Um conto

Ali estava ela. Precisamente a fazer aquilo que sempre tinha reprovado às amigas e que sempre jurara nunca igualar. “Que figura ridícula…aqui metida no carro às escuras, escondida como se fosse uma criminosa.” Pensou ela pela milésima vez. Apesar disso continuou ali, imóvel e expectante, dentro do carro. Do sítio onde estava via perfeitamente a porta do restaurante onde ele estava num jantar de negócios.

Analisando a sua atitude achava-a injustificável pois não existia marido mais atencioso e dedicado do que ele. Sabia muito bem que, secretamente, era invejada pela maioria das amigas, umas divorciadas e outras presas a casamentos de pura conveniência onde o amor já nem era ilusório, apenas inexistente. Um negócio como outro qualquer.

Há já alguns dias que a invadia aquela sensação estranha, aquele aperto no peito quando o trabalho dele se prolongava em serão. E, naquela noite, num momento de impulsividade resolvera segui-lo. Tinha que evitar a todo o custo ser vista porque não queria magoá-lo com as suas suspeitas e ciúmes infundados. Ele não merecia. Uma rainha não seria mais bem tratada e fazia-a sentir como a única mulher do Universo.

Pensou novamente como era loucura estar ali, no carro frio, quando podia estar em casa, descansada mas ali continuou na obscuridade do estacionamento como se a razão e o coração fossem independentes e tivessem vontade própria.

Começavam já a sair os primeiros clientes; não devia tardar muito a vê-lo sair com os colegas. Se arranjasse coragem para lhe contar, mais tarde, dariam boas gargalhadas à conta desta aventura.

De repente viu-o através das portas de vidro do restaurante e esboçou um sorriso. Que se congelou de imediato ao ver aquele enlaçar de cintura e o acariciar do rosto que lhe era tão familiar. Esforçou-se por ver o rosto da mulher que o acompanhava mas parecia envolto em nevoeiro, por mais esforços que fizesse para vislumbrá-lo.

- Amor, acorda, acorda! Estás tão agitada que quase me fizeste cair da cama. É um pesadelo, não?

Abriu os olhos e lá estava o rosto familiar, a preocupação espelhada nos olhos, tentando despertá-la, afugentar as sombras do sonho mau.

- Sonhei que estavas com outra mulher, beijando-a, acariciando-a…

A gargalhada bem humorada ecoou no quarto. “Tonta” sussurrou ele, antes de a beijar.

O ritual matinal correu igual ao dos outros dias: O pequeno-almoço partilhado, a saída apressada, o sorriso e o beijo de despedida.

Riu sozinha ao recordar o sonho que tivera. Por sua vez, também ele seguia, pensando no mesmo, enquanto estava no habitual pára-arranca quotidiano.

O toque familiar do telemóvel arrancou-o aos seus pensamentos.

- Querida, acho que a minha mulher está desconfiada de alguma coisa. Temos que ser ainda mais cuidadosos……Sim, claro, sabes bem que te amo. Até logo, no sítio do costume. Beijos.

Este é um conto ficcionado. Alguma semelhança com a realidade é pura coincidência. :-)

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publicado por daplanicie às 10:49

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