Este post surge no seguimento dos comentários que as minhas amigas Princesa e realidade de um sonho me deixaram a propósito do meu post anterior, onde referiam as suas más memórias relativamente às suas professoras do ensino primário e do que sofreram durante esses anos.
Depois de ler as suas palavras, fiquei a pensar como fui realmente privilegiada durante os meus anos de escola. A minha professora dos 4 anos da primária era uma querida e, embora também desse as suas reguadas quando se irritava, não era nada do outro mundo.
Eu tive a sorte de apenas ter levado uma durante os 4 anos e, no final, ela ainda me pediu desculpa pois viu que tinha sido injusta comigo. É verdade que eu sempre fui uma criança sossegada e uma óptima aluna e talvez também por isso as minhas recordações sejam melhores. Mas, no geral, não era uma pessoa agressiva ou distante e todos gostávamos dela. Ainda hoje me emociono quando a vejo e ela, apesar dos anos que passaram (e não foram poucos...), ainda se lembra do meu nome e de pormenores da nossa vida escolar em conjunto que me deixam boquiaberta.
Mas sei perfeitamente que nem todas as pessoas tiveram a mesma sorte que eu e isso deixa-me profundamente triste. A propósito disto lembrei-me de uma coisa que aconteceu há já 13 anos. Estava, nesse ano, a leccionar numa localidade aqui perto e um aluno partiu o vidro da janela com uma bola. Mandámos chamar um vidraceiro para reparar os danos e, quando o senhor chegou, mandei-o entrar na sala e ele ficou parado à porta sem se resolver a entrar.
Fui até ao pé dele, pensando que ele talvez não tivesse visto o meu gesto a pedir-lhe para entrar e vi que ele estava branco e até parecia não estar a sentir-se bem. Como era uma pessoa já de certa idade, fiquei preocupada e perguntei-lhe se havia algum problema. Fiquei chocada quando ele me responde "Professora, a senhora não sabe o sacrifício que eu vou fazer para entrar na sua sala". Devo ter ficado com cara de tola a olhar para ele porque se apressou logo a explicar que não tinha nada a ver comigo. Contou-me então que aquela tinha sido a sua sala da primária e tinha lá sofrido horrores. A história que me contou parecia um filme de terror. O seu professor chegou ao ponto de espalhar pedras ou bagos de milho nos cantos da sala e, se algum abrisse a boca durante o dia, obrigava-os a ajoelhar nas pedras e só se podiam levantar quando os joelhos sangrassem. Esta foi apenas uma das atrocidades que aquele senhor me contou, com uma cara de sofrimento que me deixou com um enorme aperto no peito. Foi de tal maneira que até um braço aquele professor partiu a outro aluno da sala, com uma paulada que lhe deu.
E ninguém se queixava porque tinha medo de maiores represálias. Era o tempo em que os alunos eram "tomados de ponta" e isto era sinónimo de que os professores não lhes ligavam nada até ao fim do ano, coisa que apavorava qualquer pai. Era também o tempo em que se julgava que as crianças aprendiam melhor se estivessem aterrorizadas e com pavor do que aconteceria se não soubessem a lição. E ainda o tempo em que se acreditava que não havia alunos com dificuldades e sim "madraços" que não ligavam à escola e, por isso, dignos de desprezo.
Quando comecei a trabalhar, há 22 anos, ainda havia desses professores do tempo antigo. Dos que acreditavam que o respeito se conquistava à reguada e ao estalo na cara e isso, francamente, nunca consegui entender. Sempre achei que com amor se educa melhor do que com ódio e nunca fui adepta da "pancadaria".
Mas também acho que uma palmada no rabiosque, no momento oportuno, não mata ninguém e faz milagres. No entanto, actualmente, caiu-se no extremo oposto e não se pode tocar nos meninos nem com uma flor, sob pena de sermos acusados de violência. É agora o tempo em que temos que aguentar tudo e mais alguma coisa, em que apanhamos alunos que nos mandam para sítios que nunca imaginámos e que levam facas para a escola. É o tempo em que os alunos se sentem no direito de dizer a um adulto "Tu não mandas em mim porque não és minha mãe/pai" quando na verdade somos mães, pais, enfermeiras, psicólogas, amigas...tudo e mais alguma coisa.
Minhas amigas, lamento muito que as vossas recordações do vosso tempo de escola sejam tão más e lamento não poder fazer nada para remediar esse facto. A única coisa que posso fazer é continuar a tentar que os meus alunos recordem sempre a sua infância como uma das melhores épocas da sua vida.
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